domingo, 10 de janeiro de 2016

Highway 61 Revisited

Em 1965 o  álbum Bringing It All Back Home traz dois momentos distintos: o lado A era essencialmente elétrico mostrando seu futuro e o lado B, acústico retratatando seu passado.

Bringing It All Back Home abria com "Subterranean Homesick Blues", que seria o primeiro compacto do disco. A canção já dava mostras do novo som do cantor, cheio de guitarras influencidas por Chuck Berry, com uma letra bem sarcástica.

Uma curiosidade dessa canção é a presença do poeta Allen Ginsberg no vídeo promocional. Dylan fica em pé, com cartazes na mão contendo trechos da letra que ele vai descartando enquanto a música é tocada. Ela alcançou apenas a 39ª posição nas paradas.

Dylan possuía uma profunda admiração pelo escritor: "Ginsberg é um dos dois santos que eu conheço pessoalmente. Ele é o único escritor que eu respeito. Gosto de outros, mas não tenho o mesmo respeito que tenho por Allen.

Ele tem uma grande qualidade: ele não é poeta apenas no papel. Eu não me considero um poeta da mesma maneira que não me considero um cantor que faz música de protesto. Mas Allen é um poeta verdadeiro. Ele chegou a musicar seus poemas."

Outro destaque do disco é "Maggie's Farm". Em 1961 Dylan cantava "Hard Times in the Country", em que narrava a exploração de um fazendeiro sobre seus empregados. Dylan também gostava muito da canção "Penny Farm", gravada pelo lendário músico Pete Seeger, em 1950.

Dessas duas, nasceu "Maggie's Farm", em que o cantor canta que não trabalhará mais na fazenda de Maggie. Essa canção fez um enorme sucesso na Inglaterra, em 1978, quando a conservadora Margaret Thatcher subiu ao poder. A canção acabou dando nome a uma história em quadrinhos da revista inglesa Time Out.

"Love Minus Zero/No Limit" pode ser considerado uma anti-canção de amor, com Dylan usando uma metáfora de uma mulher isolada no mundo, mas que tenta evitar todas as armadilhas comuns em um relacionamento amoroso.

"On The Road Again" é uma sucessão de imagens grotescas, absurdas que tanto fascinavam o cantor nessa época. "Bob Dylan's 115th Dream" tem como grande curiosidade um ataque de risos do cantor logo no início da música. Dylan quebra a tensão da gravação rindo e depois a canta de um fôlego só. É com ela que o lado A é fechada.

O lado B, totalmente acústico, é o que traz os grandes momentos do disco. São apenas quatro canções, todas clássicas. Abre com "Mr. Tambourine Man", emblemática música que tenta narra a busca da transcedência de um artista.

Nessa letra Dylan fala de todas as angústias de um ser humano. Há quem enxergue nela uma apologia às drogas já que "Tambourine Man" poderia ser um curandeiro e que essa transcedência que Dylan tanto busca venha através das drogas ilícitas., tese refutada pelo cantor: "as drogas nunca fizeram parte da canção. Parte da magia da canção vem dos "tambourine men" que encontrei pela vida. O mais impressionante é que essa intricada letra foi escrita quando o cantor tinha apenas 23 anos.

A segunda canção do lado B é "Gates Of Eden", uma canção sobre a salvação espiritual. A música teve como inspiração o poeta William Blake, que escreveu um texto chamado The Keys Of The Gates, que por sua vez tinha sido inspirado em The Gates of Paradise.

Dylan joga com a ambiguidade mais uma vez e até hoje se discute se o cantor fala do Eden de uma maneira positiva ou negativa ou se é apenas uma representação de uma busca interior.

"It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)" pega o título emprestado da canção de Arthur "Big Boy" Crudup "That's All Right, Mama", primeiro compacto de Elvis Presley, fato confirmado pelo cantor. Nela, Dylan tenta destruir todos os mitos da sociedade atual e fala das mazelas e traz uma das mais famosas frases de sua autoria "he not busy being born, is busy dying" (ele não está ocupado em nascer e sim em morrer). É uma canção que contesta a condição humana e alerta para a revolução sexual que viria a seguir. Um pesadelo em forma de letra.

O disco fecha com a não menos clássica "It's All Over Now, Baby Blue", que funciona como um adeus em diversos níveis. Nela Dylan aborda Carl Jung e o fenômeno da sincronicidade, dá seu adeus à esquerda, às ilusões amorosas e às ilusões plantadas na juventude.

"A estrada é para os jogadores e é melhor usar seu bom senso", avisa o cantor logo no início da segunda estrofe. A melodia triste e lenta soa exatamente como um adeus, uma metáfora também ao velho estilo Dylan de cantar.

Lançado em março de 1965, Bringing It All Back Home foi um tremendo sucesso, apesar de confundir a crítica. Alguns desciam a lenha por Dylan ter aderido à guitarra elétrica, enquanto outros elogiavam a postura e consideravam o disco uma obra-prima.

Mas Dylan começou a enfrentar problemas e ser acusado de ter traído a música folk e apostando numa fórmula mais comercial, indo de encontro ao rock. Essas acusações o perseguiriam por todo ano de 1965.

Ironicamente, Dylan encontraria paz e respeito em sua excursão pela Inglaterra entre os meses de abril e junho, tendo na platéia os Beatles e os Rolling Stones. Dylan havia virado uma estrela ainda maior após os Beatles falarem como o cantor havia influenciado o quarteto.

Foi nessa excursão que começaram as filmagens do documentário Don't Look Back, que seria lançado comercialmente em 1967 e foi dirigido por D. A. Pennebaker. De uma hora para outra, Dylan foi colocado no altar do mundo pop, deixando de ser apenas um cantor folk favorito dos universitários e foi alçado a condição de mito. Uma posição que o incomodou: "eu não me vejo com uma estrela e por isso não quero passar a imagem que sou isso. Eu prefiro me comportar da mesma maneira do início de minha carreira, quando eu era um desconhecido."
A CBS aproveitou para faturar em cima da fama do cantor e lançou ainda em junho um compacto com as canções "Maggie's Farm" e "On The Road Again" e viu o catálogo de Dylan vender como nunca, com quatro discos do cantor entre os 20 mais vendidos, enquanto Bringing It All Back Home ocupava o primeiro lugar naquele país.

No dia 12 de maio, Dylan entra no Levy's Recording Studios, em Londres para gravar em apenas um dia a canção que marcaria sua carreira: "Like A Rolling Stone".

Lançado em junho de 1965, como compacto, "Like A Rolling Stone" é mais emblemática e importante canção de seu imenso catálogo e uma das pedras fundamentais do rock.

"Like A Rolling Stone" alcançou o segundo posto entre as mais tocadas na América e marca uma inovação artística imensa para Dylan. Utilizando os serviços do tecladista Al Kooper e do guitarrista Mike Bloomfield, que tocava no grupo de blues de Chicago, The Paul Butterfield Blues Band, e com uma letra quilométrica - Dylan disse que utilizou seis páginas para completá-la - foi construída no piano por Dylan, que pediu a Kooper para adicionar alguns sons de seu órgão.
Dylan retratou todos os problemas da vida através de uma garota em idade escolar perdida, mostrando momentos de euforia com a liberdade e com o pânico e medo de não poder possuir as coisas mais simples da vida, como um prato de comida. Um adeus à inocência.

Dylan conta que compôs a canção rapidamente. "Ela veio até mim. Eu tive apenas que escrevê-la". Todo o processo foi feito em apenas um dia.

Com a canção tomando conta do planeta, Bob Dylan virou uma estrela e seria o grande destaque de um festival que já havia tocado nos dois anos anteriores, o de Newport. O que ele não poderia imaginar seriam os problemas que viriam a seguir.

O Dylan que chegou no mês de julho, em Newport, não era o mesmo Dylan dos anos anteriores, afinal ele vivia um momento de grande sucesso comercial e com um compacto vendendo como nunca e com instrumentos elétricos.

O próprio festival se mostrava mais eclético, abrindo espaço para a própria Paul Butterfield Blues Band se apresentar e com retumbante sucesso, apesar do desdém de alguns organizadores. Muddy Waters já havia estado lá no ano anterior, levando seu blues eletrificado ao evento e por isso Dylan acreditava que seria bem recebido. Mas não foi bem o que aconteceu.

Um dos organizadores do festival era Pete Seeger, amigo e ídolo de Dylan. Seeger era quem mais estava irritado com o repentino sucesso das bandas inglesas na América e disse na abertura da última noite, no domingo, que aquela noite seria uma resposta aos novos grupos e à nova música que estava aparecendo. E Dylan tremeu.

O grande problema era que Bob queria tocar "Like A Rolling Stone" e outras músicas e todos esperavam ouvir o Dylan acústico.

Após assistir o show da Butterfield Blues Band, o cantor convidou três músicos da banda - além de Mike Bloomfield, o baixista Jerome Arnold e o baterista Sam Lay - e também o tecladista Al Kooper, que estava presente ao evento.

Com os quatro e mais o pianista Barry Goldberg, Dylan passou o final de semana ensaiando exaustivamente as canções e faria uma apresentação surpresa ao público.

Dylan seria a atração do meio daquela noite de 25 de julho, ficando entre Cousin Emmy e Sea Islands. A primeira impressão que ele passou ao público ao subir ao palco era aterradora: com uma camisa laranja, jaqueta de couro e óculos escuros, ainda trazia uma guitarra em seu colo.

Quando os músicos atacaram "Maggie's Farm", a platéia começou a vaiar enfurecidamente. Xingando-o de "traidor" e pedindo Cousin Emmy de volta, o público não perdoou a postura de Dylan, que segundo eles havia se "vendido" ao comercialismo. Quando os músicos começaram a tocar "Like A Rolling Stone", a vaia era ainda mais intensa e os fãs pediam que tocasse folk. As vaias diminuíram um pouco quando ele começou a tocar a inédita "It Takes A Lot to Laugh, It Takes A Train To Cry". Com a platéia menos hostil, Dylan pediu que Peter Yarrow, do trio Peter, Paul & Mary lhe arranjasse um violão para tocar "It's All Over Now, Baby Blue". Dylan executou a canção e deixou o palco rapidamente.

Nos bastidores Pete Seeger estava enlouquecido e queria bater em Dylan, chamando-o de traidor e o acusando de ter insultado o público do festival.

O pior foi quando as mesmas vaias foram repetidas no clube Forest Hills, com lotação esgotada para 15 mil pessoas. Dylan foi vaiado com ainda mais intensidade e descobriu que o problema não havia sido ter tocado em um festival folk com uma guitarra elétrica. O problema era controlar a raiva de seus antigos fãs.

Apesar desses pequenos contratempos, Dylan voltou a surpreender o mundo ao lançar, cinco meses depois de Bringing It All Back Home um outro disco: o excepcional Highway 61 Revisited.

Se o disco anterior ainda tinha um lado inteiramente acústico, o novo trabalho era totalmente elétrico. E além de ter uma banda em estúdio, pela primeira vez, o disco marca o fim da parceria com o produtor Tom Wilson, que deu lugar ao novato Bob Johnston.

Um dos segredos para o sucesso do disco, segundo Johnston, foi o bom humor do músico durante as gravações: "Bob conseguiu desenvolver uma ótima atmosfera dentro do estúdio. Se ele achava que não estava em um bom dia, parávamos e continuávamos na tarde seguinte.

Os músicos sempre o respeitaram, pois sabiam que Dylan era um dos melhores do mundo e Bob sempre utilizou isso a seu favor. E Dylan sempre foi uma pessoa que gosta de desafios. Ele não segue ninguém, ele é seguido.

Quando ele faz algo, o mundo inteiro o copia. Seu método de trabalho é simples. Ele utiliza um mínimo de overdubs e grava tudo rapidamente em poucos takes. Eu posso até passar uma semana mixando uma canção, mas a decisão final sempre será dele. Ele é um perfeccionista e não aceita uma versão boa, só a melhor. É uma das pessoas mais intensas que existe e realmente não acho que sou o 'produtor' de seus discos, mas sei que fiz o meu melhor quando ele fica com um sorriso nos lábios."

O LP tinha as seguintes faixas:

Lado 1

1. "Like a Rolling Stone" 6:09
2. "Tombstone Blues" 5:58
3. "It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry" 4:09
4. "From a Buick 6" 3:19
5. "Ballad of a Thin Man" 5:58

Lado 2

1. "Queen Jane Approximately" 5:31
2 . "Highway 61 Revisited" 3:30
3 . "Just Like Tom Thumb's Blues" 5:31
4 . "Desolation Row"

O disco abre com "Like A Rolling Stone", a única canção produzida por Tom Wilson. O disco segue com "Tombstone Blues", com uma letra estranha onde cita Jack O Estripador, João Batista, Paul Revere, Belle Starr, Jezebel e faz uma crítica à Guerra do Vietnã.

A quinta música do disco é certamente a mais enigmática e críptica de toda a carreira de Dylan: "The Ballad Of A Thin Man." Ela conta a história de Mr. Jones o mais estranho personagem de Dylan, e provavelmente da música pop.

Mr. Jones virou simplesmente um mito que nunca foi decifrado e sempre que perguntado sobre o personagem, Dylan dava uma resposta mais confusa que outra: "eu não posso dizer quem ele é ou ele me processará"; "são várias pessoas"; "alguém muito poderoso", etc..

A história de um homem solitário que se encontra sozinho em um quarto, nu e que não reconhece a si mesmo é uma canção que jamais terá seu significado real desvendado.

"Highway 61 Revisited" fala da estrada que passa por Duluth, cidade natal do artista e que a liga ao resto do país. Através dela, faz uma metáfora da violência com textos bíblicos.
Com apenas nove faixas, o álbum fecha com uma das mais sinistras letras que Dylan já escreveu, "Desolation Row", que fala do Apocalipse, com inspirações no livro The Waste Land de T. S. Eliot e o poema Howl, de Allen Ginsberg

"Eles estão vendendo cartões postais sobre o enforcamento/ Eles estão pintando os passaportes de marrom/ O salão de beleza está lotado de marinheiros/ O circo está na cidade/ Lá vem o comissário cego/ Eles o mantêm em um transe/ Uma mão amarrada/ Ao equilibrista que caminha pela corda bamba...", são as primeiras linhas da canção que fecha um dos discos mais poderosos da história.

Em setembro é lançado um novo compacto com as canções "Positively 4th Street" e "From A Buick 6", que fazia parte de Highway 61 Revisited.
E após dois discos tão monumentais que renderam imensas vendagens, o ano de 1965 ainda ouviria falar de Bob Dylan.

No mesmo mês em que era lançado o compacto Like A Rolling Stone, sai, também pela CBS, o disco de estréia do grupo californiano The Byrds: Mr. Tambourine Man.

Ninguém sabe ao certo como o grupo teve acesso à canção, já que o disco foi gravado entre janeiro e abril daquele ano, mesmo período em que Dylan fazia Bringing It All Back Home.

Especula-se que eles haviam ouvido uma demo e gostado da música e resolveram adaptar ao estilo do grupo. A versão é bem menor do que a de Dylan e não tem a letra cantada por inteiro, mas se tornou um imenso sucesso.

O fato é que o compacto e o disco fizeram um enorme sucesso.

Tanto o compacto quanto o LP ajudaram a criar um novo estilo batizado de folk rock, na qual os Byrds foram considerados os inventores, epiteto rejeitado pela banda.

Mas Dylan não parava e mesmo tendo os Byrds aumentando ainda seu legado, ele só pensava em caminhar ao futuro e desta vez levando consigo aliados importantes: uma certa banda chamada The Hawks, que seria rebatizada depois como The Band, seus grandes parceiros nos próximos dez anos.

Texto site Mofo
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